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Ricardo Arap: Desafiando 5Mil km de bike


Conheça o ciclista ultra-maratonista Ricardo Arap, que à partir dessa semana continua a escrever seu nome na historia do ciclismo nacional.

E nessa 3ª-feira (13/06/17) começará a 36ª edição da RACE ACROSS AMÉRICA (RAAM). Pra quem não sabe do que se trata, essa é considerada a ultra-maratona mais casca-grossa do planeta. Uma viagem da costa leste à costa oeste americana. São quase 5Mil quilômetros de pedaladas. Nas categorias SOLO, a previsão é completar a prova em 11 dias. É coisa pra gente grande. E o Ricardo estará lá, em sua 13ª participação. Confira a entrevista.

Fotos: Arquivo pessoal e/ou facebook

Agradecimento: Renata Arap

Empresas que apoiam o Ricardo Arap: Trek Bikes e Hospital LeForte

* Matéria escrita ao som de Mees Dierdorp. Clique Aqui e Ouça.

Aos normais é quase que incompreensível que haja uma prova com tamanho grau de exigência de um atleta. Mais incompreensível são as razões de cada um para se desafiar nesse universo extremo. A RAAM é para poucos. Em se tratando de brasileiros, mais poucos ainda. Para se ter idéia, em 35 anos de prova, apenas três brazucas concluíram a prova na categoria SOLO. São eles: o santista Claudio Clarindo (que recentemente morreu atropelado enquanto treinava nas estradas de Santos), Julio Paterlini e a Dani Genovesi competindo na categoria feminino individual em 2009.

Às vésperas da largada para a 36ª edição da RAAM (eles largam amanhã, 13/06/17), a Bike Tech Jardins escolheu contar a história do educador físico, Ricardo Arap. Um paulista de 49 anos, que já está em Ocean Side, na California, pronto para a sua largada: será a 6ª tentativa na categoria SOLO (ele já completou outras 7 vezes, sendo cinco em QUARTETO e duas em DUPLA). Além de amante e fomentador do ciclismo, o Ricardo é sócio proprietário da RACE CONSULTORIA ESPORTIVA, uma das mais longevas assessorias de ciclismo de São Paulo. Recentemente, os próprios organizadores da prova destacaram a participação do Ricardo na prova. Em uma recente publicação na Página Oficial da RAAM no FaceBook, ele foi destaque: diz o texto que "poucos ciclistas têm tanta paixão por essa prova como o Ricardo". Dos brasileiros, sem duvida ele é o ciclista quem mais participou dessa corrida; São 13 participações na bagagem.

Não foi por acaso o Ricardo escolheu a bike Trek Madone 9.9 Dura-ace como sua parceira para esse desafio. Sem duvidas, essa é uma das bikes mais aerodinâmicas e rápidas do mercado. A fusão perfeita entre potência, aerodinâmica e integração dos componentes. Curiosamente, no ano passado o Ricardo obteve a sua melhor marca correndo SOLO, percorrendo mais de 2.400km na RAAM, também à bordo de uma Bike Trek Madone.

E foi nesse clima de pré-viagem, na correria dos treinos que ele mesmo dirige, fomos ao encontro dele pra sentir de perto sua energia e ansiedade para mais esse desafio. De acordo com ele, esse é seu desafio para celebrar os 50 anos; E se ele conseguir completar a prova, será ótimo! Se não, será mais um capitulo na vida desse cara, que com sua humildade e atitude, nos demonstra na prática, a máxima da vida de que "o que vale mesmo é a viagem; e não o destino"!

Ricardo em 2016, largando aos lados dos filhos. Momento épico!

BTJ: Porque a bike?

R. Arap: Quando criança eu tinha problema de crescimento. E devido à uma “crença popular” de que o basquete “aumentava” as crianças, minha mãe me incentivou a jogar basquete. Me incentivou também a tentar a natação e o futebol de salão. De qualquer maneira eu fazia a natação para desenvolvimento e como eu era um cara que nunca tive muito talento mas tinha uma força de vontade absurda eu fiz da natação um complemento para meu condicionamento no futebol. Lá eu conheci o Ricardo Santos que me incentivou a estudar Educação Física.

Na natação, conheci o Acássio Lang - que na época era um ciclista “profissional” e por motivos de lesão na coluna, ele parou com o Ciclismo de estrada e começou a treinar para o Triatlo. Eu sugeri ao Acássio que o ensinaria a nadar e ele me ensinaria a pedalar… Isso eu tinha 17 pra 18 anos. E foi assim que o ciclismo aconteceu.

Meu primeiro role com ele nós fomos de Interlagos até o aeroporto de Guarulhos. Ele, um ciclista todo preparado, e eu, de bermudão e sem preparo algum. Na volta eu só pensava em chegar pra poder comer algo. Daí pra frente, participamos de provas do Campeonato Paulista, Volta do Interior, Torneios no Vale do Paraíba… enfim…

BTJ: Porque “longas pedaladas”?

R. Arap: Eu era muito apaixonado por esporte e fiquei louco pela bike. Eu era daqueles ciclistas que era maníaco por treino. Eu já dava aula/treino nessa época e também participava das provas de triatlo com o Ricardo Lang lá em Limeira. Eu pegava a minha bike e ía até Limeira prestigiar e incentivar meus alunos que participavam das provas. Eram outros tempos. Eu não levava estrutura, tendas ou a estrutura que hoje temos. Era tudo menos “profissional”. E percebi que o fato de pegar a bike e “ir” de um ponto a outro me satisfazia. Através do ciclismo conheci vários ciclistas que estavam parando as competições de estrada. Dentre eles, conheci o José Carlos Secco - que detinha o recorde de distância do Desafio São Paulo X Rio de Janeiro (pedalando pela Rodovia Dutra). Achei o máximo e me vi enfrentando um desafio desse nível por conta de justamente gostar de ir “de um ponto ao outro”…

BTJ: E a RAAM, como aconteceu?

R. Arap: Acho que foi na 3ª edição que contou com a participação de brasileiros em quarteto (Flavio e Cid Cardoso, mais Michel Bõgli e José Carlos Secco). O Secco quase não foi porque sua esposa estava grávida passando por uma gestação de risco. E ele me ligou me convidando para substituí-lo. Imediatamente aceitei. Isso já era um sonho meu… Felizmente, na ultima hora a esposa ficou bem, tudo correu bem e ele teve condições de participar da corrida. Porem, isso só serviu para deixar a semente plantada na minha cabeça. E o fato de fazer 30 anos no ano seguinte foi o motivo suficiente para que a decisão fosse tomada. Eu era solteiro, não tinha família e tudo conspirava a favor para que o projeto deslanchasse. E foi assim que nasceu o projeto RAAM dentro de mim.

BTJ: E da semente pro fato, como transcorreu?

R. Arap: Bom, com o projeto na cabeça, fui atrás do “resto”. A primeira decisão foi optar por correr em DUPLA porque o quarteto faria com que as despesas fossem maiores e naquele momento eu não tinha verba. Com essa diretriz só faltava o detalhe de encontrar um outro maluco que se dispusesse a correr comigo. Talvez essa tenha sido a fase mais complicada. Entre dois ou três parceiros que eu tinha em mente: Naquela época correr uma prova dessa era realmente um desafio fora da curva e não eram muitos ciclistas que se dispunham a enfrentar uma loucura desse nível. E nas minhas pesquisas encontrei o Alexandre Ribeiro. O Alexandre é um triatleta de Niterói que até pouco tempo atrás detinha o melhor índice brasileiro do Iron Man do Hawaii.

BTJ: E como vocês organizaram os treinos e a sincronia entre a dupla?

R. Arap: O fato de ele estar morando e treinando em Boulder/CO dificultou um pouco minhas pretensões. Eu o convidei a participar da prova comigo há apenas um mês antes da RAAM e nós nos conhecemos penas 3 dias antes da prova. À partir do momento que ele aceitou eu saí correndo atrás de grana. Vendi meu carro, arrumei um patrocinador (que um mês antes da prova “deu pra trás” e pulou fora) e felizmente também teve o João Paulo Diniz me ajudou muito nesse sentido.

BTJ: Bom, com essa sincronia toda, qual era a perspectiva de vocês para a prova?

R. Arap: Largamos em dupla e nossa perspectiva era apenas concluir a prova. Queríamos chegar. E aos poucos fomos evoluindo no pedal. O pessoal do Staff começou a tirar parâmetros com os tempos dos outros e estávamos dentro da média. À partir do meio da prova o Staff começou a comparar nosso tempo com o recorde de DUPLAS, que era 9 dias alto e percebeu que tínhamos chance de bater o recorde da prova. Isso só nos deu mais força e determinação para concluirmos a corrida. No final, fizemos em 7 dias e 10 horas, diminuindo o recorde em 2 dias.

Uma curiosidade foi que no congresso técnico eu havia dito aos organizadores que estava ali para celebrar meu aniversário, que seria em 07/10. E quando chegamos, a direção da prova havia colocado uma grande faixa onde se lia: “7D10H”. No calor da chegada e no ápice do meu cansaço achei que aquilo era uma homenagem dos organizadores quanto ao meu aniversário E pensei “nossa, que legal, os organizadores realmente entenderam a importância de correr essa prova para celebrar meus 30 anos…” Só depois eu me toquei que aquela faixa era nos parabenizando pelo recorde da dupla de 7 Dias e 10 Horas. Mas levei isso como um presente da vida.

BTJ: E como foi entrar para o Guiness Book?

R. Arap: Já de volta ao Brasil, em algum momento o Alexandre comentou que nossa conquista poderia “dar” Guiness Book. Entramos com um processo solicitando inclusão no Guiness em agosto ou setembro daquele ano (1998). Na época não tinha internet. Era tudo feito através de carta. Daí, mandava uma carta pro Guiness na Inglaterra, que depois de um mês (mês e meio), chegou a resposta pedindo uma comprovação dos organizadores. Aí manda carta pra organização da prova que envia um documento… e o processo demorou até novembro. Aí chegou um certificado oficial do Guiness confirmando nosso recorde, porem a edição do livro de 1999 já estava “fechada” e eles não teriam tempo hábil de nos incluir no livro daquele ano. Mas para mim, o certificado já era mais do que suficiente.

Certa vez tinha um aluno da RACE que foi correr a maratona de Nova York (em 2002) e folheando o Guines de 2002, encontrou na pagina 222, logo acima do texto sobre a 7ª conquista do Lance Armostrong (no Tour), estávamos lá; Quatro anos depois. Se não fosse nosso aluno, não abrisse o livro, e não abrisse na pagina 222, nós nunca saberíamos que estávamos registrados no livro Guines Book.

BTJ: Bom, vamos falar sobre a RAAM. Quantas dela você tem na bagagem?

R. Arap: Estou indo pra 13ª. Não significa que eu terminei todas, né. Eu já fiz 5 Quartetos, duas Dupla e estou tentando a 5 vezes completar a SOLO (que ainda não conclui nenhuma).

BTJ: Qual é a media de pedaladas por dia?

R. Arap: Uma média de 18 a 20 horas. Depende da situação que você está; eu já cheguei a pedalar 26 horas. O máximo que eu pedalei foi 38 horas, se não me engano.

BTJ: Quanto que dá de distância (em quilômetros) por dia?

R. Arap: Eu tenho que fazer pra terminar a prova 400 km de média (por dia). Mas como a média de todo mundo vai baixando no decorrer da prova. Tem momentos da prova que ela é muito rápida e às vezes ela pega muito. Tipo no Colorado você passa por duas montanhas de 3.500 metros (10.500 pés), então a média abaixa durante a prova. Diante disso, você tem que fazer um “caixa” de quilometragem. Aproveitar o primeiro e segundo dia pra fazer 550 a 600km pra poder administrar no final. Porque no final inevitavelmente vai abaixar. Uma média de 20 km por hora.

BTJ: E como uma pessoa aguenta pedalar 600 km por dia, vários dias seguidos?

ARAP: Ahhh cara. É tirar referência né?! Partindo do principio que você tem que ter uma base física, a prova é mental. Porque você passa por deserto de 48º/50º; Você sobre montanhas no meio da prova e no final da prova também; Você tá no deserto (aquela secura) à noite no frio; -5º no Colorado; As montanhas tem neve no topo; Não tem oxigênio (na altitude)… daí vai no acumulado de “perna”, dorme mal (dorme onde dá, não onde agente quer).

BTJ: E onde você dorme? E por quanto tempo?

R. Arap: Antes eu dormia no Motor-home. agora a gente começou a dormir nos hotéis. Daí você dá um reset. Toma um banho… Durmo aproximadamente 3 horas por dia.

BTJ: E sua alimentação?

R. Arap: Tem coisas que você tem que seguir: suplementação, cápsulas de sal, BCAA, whey protein, gel, gel com cafeína, cafeína, etc… Só que você vai comendo como trator o dia inteiro. Muito em cima da bike. Tem horas que o staff me manda uma pizza-hut em cima da bike e eu como ela inteira. como o que dá…

BTJ: Como funciona o carro de apoio? Ele te segue?

R. Arap: Existem regras. Existe um livro de rotas que você tem que seguir. Você tem 53 time-stations. Você tem que reportar.

BTJ: O que é o reporte?

R. Arap: Temos que ligar e avisar que estamos passando em tal, ponto, tal horário… etc..

BTJ: O apoio pode te seguir o tempo todo?

R. Arap: Pode não: deve! Principalmente à noite. Não pode das 7 da noite às 7 da manhã pedalar sem carro de apoio. Se quebrar o carro de apoio você não continua a prova.

BTJ: Tem algum momento que você fica sozinho na prova?

R. Arap: Tem alguns estados, que durante o dia você não pode ter o carro de apoio. Por conta das regras de transito.

BTJ: E a vontade de desistir? Ela aparece?

ARAP: Às vezes você se recupera porque literalmente faltou oxigênio no seu cérebro. E o desgaste. Sempre tem alguém que te fala a palavra certa. Que te dá força pra levantar e ir. Não adianta: vc precisa contar com a ajuda do pessoal. Às vezes o cara te faz um carinho na cabeça; às vezes o cara te obriga mesmo. Você sobe na bike chorando… mesmo!

BTJ: Quantas pessoas vão no staff?

R. Arap: Já levei de 5 a 14 pessoas. Depende da categoria que você participa. Com um time de quarteto você precisa no mínimo de três times de três pessoas: (um motorista, um navegador e de alguém pra fazer tudo) em cada carro (um Motor-home e uma Van) e uma equipe descansando pra revezar. Não tem saída. Não dá pra ir menos de 6 no solo (3 equipes de 2 - um motorista e um navegador, no mínimo).

BTJ: Qual o custo aproximado?

R.Arap: São basicamente três pilares de custos: a inscrição (USD3.000), mais uns USD$3.000 de custos operacionais e uns USD$5.000 (que é a passagem aérea pro staff todo). O resto você consegue paga em mais vezes (carro, hotel.. é mais acessível). Ou seja, um investimento de 15Mil no magro e 20Mil no gordo.

BTJ: Queria te agradecer pelo seu tempo e por dividir isso com a gente.

R.Arap: Eu não gosto de ficar falando muito nesse momento (muito véspera da viagem) se não fica parecendo promessinha, sabe. Pra falar que faz e fica tentando, e tentando…. mas eu terei o maior prazer de quando voltar, poder dividir mais coisas com vocês. Mas eu quero terminar!

E isso aí Ricardo, vai na fé amigo.

Cada um tem a viagem que busca! Pedale atrás dos seus sonhos.. e boa viagem

#RicardoArap #RACEACROSSAMÉRICARAAM #TrekMadone99

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